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DISSERTAÇÃO/TESE
- Tema do âmbito técnicoprofissional, realizado
em 1989 - (Resumo)
"A RELAÇÃO
ENFERMEIRO-DOENTE"
1 - INTRODUÇÃO:
“A Relação Enfermeiro-Doente em Psiquiatria” foi
o tema da dissertação/tese que, em 1989, me
propus elaborar, como trabalho de investigação e
prova final do C.A.S.E. apresentado e discutido
na E.S.E.A.F - Coimbra.
Este estudo, que incidiu, na área da enfermagem
de saúde mental e psiquiátrica (por influência,
em parte, da minha especialidade profissional)
não deixa, contudo, de ser bem mais abrangente.
As suas conclusões podem (e devem, do meu ponto
de vista), aplicar-se a qualquer situação do
quotidiano na relação Técnico-Doente, e em
qualquer área de cuidados.
O cuidado físico ao doente não é já a
responsabilidade maior do enfermeiro, que, como
qualquer outro técnico de saúde, deve contribuir
para a criação de um ambiente interpessoal
favorável à melhoria do estado global dos
doentes com a finalidade, sempre que possível,
da sua recuperação plena.
A atitude do enfermeiro jamais se deverá
limitar, pois, à observação, à administração das
terapêuticas somáticas, ou à satisfação das
chamadas “necessidades básicas” do paciente,
como a alimentação, o repouso, a higiene...
A
evolução dos meios terapêuticos, sobretudo na
área da saúde mental e psiquiátrica, a partir da
primeira metade do século XX, a especialização
da enfermagem nessa área e, para além disso, a
moderna concepção ideológica em saúde mental
comunitária implicam, necessariamente, que a
acção do enfermeiro, deva responder às
expectativas da sociedade moderna e às
necessidades dos doentes, modificando o seu
papel tradicional, baseado no modelo médico, que
enfatizava o bem-estar físico e privilegiava
mais os sintomas e a doença, em detrimento do
doente enquanto pessoa global no seu múltiplo
contexto biológico, psicológico, sociológico,
cultural e espiritual.
A
qualidade da relação técnico-doente deve ser um
instrumento fundamental na sua prática diária. É
uma questão pertinente, ainda que algo
problemática, especialmente na acepção da
chamada “relação psico-terapêutica”, pouco
aceite por uns e mal entendida por outros.
Haverá, pois, que desmistificar tal problema
abandonando-se o complexo de que, o enfermeiro,
não pode ou não deve exercer esse tipo de
relação, a qual – quando apoiada em
conhecimentos adequados –, é mais que uma
relação meramente social, formal e profissional:
essa relação é também, e principalmente, uma
forma de psicoterapia.
Segundo Kozier et Erb (1882), “o exercício da
profissão de enfermagem baseia-se numa
perspectiva humanista de conhecimentos
científicos, de filosofia e de prática clínica,
com apoio das ciências da comunicação e das
ciências sociais”.
Assim, ao enfermeiro não importa a
complexidade dos fenómenos do inconsciente; nem
a isso terá forçosamente de recorrer para
exercer uma boa relação com o doente, como meio
para atingir um objectivo mais amplo – a relação
terapêutica autêntica.
Algo ambicioso, talvez, e não menos polémico, o
tema por que optei para a dissertação
apresentada e defendida no II CASE, teve como
principais
2 - OBJECTIVOS:
•
Conhecer os fundamentos e os tipos de relação
técnico-paciente do ponto de vista teórico;
•
Observar, de forma directa, sistemática e não
participante, a relação estabelecida por parte
dos enfermeiros nos serviços de psiquiatria e
saúde mental;
•
Conhecer a opinião dos enfermeiros acerca da sua
própria relação com o paciente;
•
Identificar alguns factores determinantes dessa
relação.
Nessa perspectiva, e como possível contributo
para a resposta ao problema atrás enunciado,
colocou-se uma outra questão geral, da qual se
partiu para as seguintes
3 - HIPÓTESES
DE ESTUDO
- Será
que a Relação Enfermeiro-Doente, nos serviços de
psiquiatria, é significativamente influenciada
por:
• O
método de organização dos cuidados de
enfermagem?
• A
aplicação sistematizada do Processo de
Enfermagem?
• O
“ratio” Enfermeiro/Doentes?
• O nível
de formação profissional dos enfermeiros?
• A
categoria profissional dos enfermeiros?
• O tempo
de exercício na profissão?
Procurando
resposta para as questões anteriores
procedeu-se, numa primeira parte, à exposição
das bases teóricas dos cuidados de enfermagem,
com revisão bibliográfica sobre alguns
conceitos, pertinência dos modelos teóricos e do
processo de enfermagem e, ainda, sobre a Teoria
do Interaccionismo Humanista.
Num segundo ponto, destacamos a Relação
Enfermeiro-Doente, abordando o problema da
Comunicação, factores que a influenciam,
modelos, modos de comunicar, e uma referência,
também, ao direito à informação, como um direito
do doente, algumas vezes negligenciado.
Foi abordada a Teoria da Análise Transaccional,
a sua importância nos cuidados de enfermagem
psiquiátrica, e o processo de análise da
interacção, tão importante, aliás, para o
enfermeiro, a quem permite um melhor
conhecimento de si próprio e dos doentes.
Foi tratado ainda um assunto –porventura algo
controverso, segundo algumas opiniões – que é o
problema da “Relação Terapêutica”, como um fim a
atingir pelo enfermeiro na sua relação com o
Doente. Faz-se uma breve descrição das suas três
principais fases: – inicial (ou de orientação);
– intermédia (de trabalho), e final.
A terminar este ponto, uma abordagem sobre a
temática da "observação" e da "entrevista", como
técnicas mais utilizadas, e porventura as mais
importantes, no decurso das várias fases da
relação entre o enfermeiro (técnico de saúde) e
o doente/paciente.
4 - METODOLOGIA
Sem uma estrutura
adequada e criada para os propósitos da
pesquisa, pouca coisa de valor pode ser
realizada; pois, como adverte Kerlinger (1989) “
"o delineamento da pesquisa é a disciplina dos
dados”. A metodologia seguida neste trabalho
contempla os seguintes passos:
4.1 – População
A pesquisa efectuada pretendia avaliar a relação
estabelecida perante os doentes (adultos, agudos
e/ou de evolução prolongada), pelos enfermeiros
das unidades de internamento dos hospitais
psiquiátricos do distrito de Coimbra.
Por razões de ordem operacional e pelas suas
características específicas, não foram incluídos
nesta população alvo: os serviços de alcoologia
e de doentes inimputáveis; e os enfermeiros
chefes, enfermeiros supervisores e enfermeiros
directores.
O trabalho de pesquisa foi, pois, efectuado em
três instituições psiquiátricas – dois hospitais
centrais especializados e um hospital-colónia
agrícola, num total de 16 unidades de
internamento e 174 enfermeiros.
4.2 -
Selecção da Amostra
Foi seleccionada uma amostra de: duas unidades
de internamento do hospital A; três unidades do
Hospital B; e duas do hospital C. Aos hospitais
A e B adoptou-se o critério probabilístico
casual estratificado, tendo por base os sectores
feminino e masculino. Para o hospital C (doentes
do sexo masculino), os dois serviços foram
seleccionados pelo probabilístico casual
simples, segundo os critérios propostos por
Rudio (*).
4.3 –
Hipóteses
Hipótese
geral: – HØ: A relação Enfermeiro-Doente nos
serviços de psiquiatria não é influenciada
significativamente pelas características dos
serviços ou dos enfermeiros. Daqui se formularam
seis hipóteses específicas a que atrás se fez
referência.
4.3.1 –
Variáveis:
Variável dependente: “a relação
Enfermeiro-Doente”; variáveis independentes: -
“o método de organização de cuidados”, “a
aplicação sistematizada do processo de
enfermagem”, “a formação profissional dos
enfermeiros”, “a categoria profissional”, “o
tempo de exercício em psiquiatria”, e “ o
‘ratio’ Enfermeiro-Doente”.
4.4 –
Tipo de pesquisa
Basicamente de tipo descritivo, atendendo às
técnicas e métodos observacionais utilizados, e
que são referidos a seguir.
4.5 -
Técnicas utilizadas
Observação directa, sistemática e
não-participante – numa primeira fase, para
colheita de dados sobre as atitudes dos
enfermeiros na sua relação com os doentes, em
que foi utilizada uma “grelha de observação”; e,
- numa segunda fase – foi aplicado um formulário
(através de entrevistas aos enfermeiros dos
mesmos serviços), no qual constavam as mesmas
características da relação Enfermeiro-Doente,
previamente observadas.
4.6 -
Instrumentos de colheita de dados
Foi primeiramente utilizada uma “Grelha de
Observação” composta por cinquenta unidades,
agrupadas pelas seguintes categorias:
I “Acolhimento (e informação)”;
II – “Administração de terapêuticas, colheitas e
exames complementares”;
III – “Sono repouso, higiene alimentação”;
IV – “Actividades ocupacionais”;
V – “Alta do doente”; e,
VI – “Comunicação”.
O
formulário, como se disse, comportava os mesmos
cinquenta itens, subdivididos do mesmo modo mas,
neste caso, para obter a opinião dos enfermeiros
sobre as suas atitudes da relação com os
doentes.
Para tal,
era-lhes pedido que, em todas as suas respostas,
atendessem previamente às seguintes condições:
-
“imagine-se nas
situações de trabalho, concretas, gerais e
habituais. - Para responder às
questões formuladas considere “sempre que o
estado do doente o permita”.
5
- CONCLUSÕES
∙ Apenas num
serviço era aplicado o Processo de Enfermagem
em todas as suas fases;
∙ Constatou-se
existir uma diferença entre a qualidade da
Relação Enfermeiro-Doente observada –
que se situou no nível de
“Suficiente”, ainda que tendencialmente para
“Boa”, sem nenhum caso de “Muito Boa”, apenas
um caso de “Deficiente” e nenhuma de “Muito
Deficiente” –
e os resultados das opiniões
dos enfermeiros, colhidos pelo formulário,
em que atingiu os níveis de “Boa”, na sua
maioria, seguida de “Suficiente”, um caso de
“Deficiente” e nenhum de “Muito Deficiente”.
∙ As áreas em que
os resultados sugerem uma relação mais
positiva, são: a Administração de
Terapêuticas, Colheitas, Exames Complementares
(II); a Preparação da Alta do Doente (V); e a
Comunicação (VI), cujos níveis se situam
respectivamente em 77,58, 73,68 e 71,40%; as
restantes atitudes (ou grupos de atitudes),
embora atingindo o nível de “Boa” não
ultrapassaram, respectivamente, 65,33 e
69,8 %.
∙
CONCLUSÃO GERAL:
Relação Enfermeiro-Doente “Suficiente” pela
observação efectuada;
“Boa” segundo a opinião dos enfermeiros.
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