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A
obra de Florbela é a expressão
poética de um caso humano. Decerto para
infelicidade da sua vida terrena, mas glória de
seu nome e glória da poesia portuguesa, Florbela
viveu a fundo esses estados quer de depressão,
quer de exaltação, quer de concentração em si
mesma, quer de dispersão em tudo, que na sua
poesia atinge tão vibrante expressão. Mulheres
com talento vocabular e métrico para talharem um
soneto como quem talha um vestido; ou bordarem
imagens como quem borda missanga; ou (o que é
ainda menos agradável) se dilatarem em ondas de
verbalismo como quem se espreguiça por nada ter
o que fazer, que dizer - naturalmente as houve,
e há, antes e depois da vida de Florbela. (...)
Também, decerto, apareceram na nossa poesia
autênticas poetisas, antes e depois de Florbela.
Nenhuma, porém, até hoje, viveu tão a sério um
caso tão excepcional e, ao mesmo tempo, tão
significativamente humano. Jorge de Sena dirá:
tão expressivamente feminino."
(José Régio • in
"Sonetos" de Florbela Espanca, Livraria
Bertrand, Portugal, 19ª. Ed. completa,1981)
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EM BUSCA DO AMOR
O meu Destino disse-me a chorar:
"Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar."
Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas de meu sonho desfiando...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...
Mesmo a um velho eu perguntei:
"Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?"
E o velho estremeceu... olhou... e
riu...
Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos p'ra trás desanimados...
E eu paro a murmurar: "Ninguém o
viu!..."
(Florbela Espanca - in «Livro de Mágoas»

ALMA
PERDIDA
Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!
Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!
Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...
(Florbela
Espanca - in "Livro de Mágoas")
TEUS
OLHOS
Olhos do meu amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas meus brocados.
Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!
Olhos do meu amor! Fontes...
cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais
eternas...
Berço vindo do céu à minha porta...
Ó meu leito de núpcias irreais!...
Meu sumptuoso túmulo de morta!...
Florbela
Espanca – in «Charneca em Flor» –
"Sonetos"

AMIGA
Deixa-me ser a tua amiga,
Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.
Que só, de ti, me venha
mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!
Beija-me as mãos, Amor,
devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...
Beija-mas bem!... Que
fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei p'rá minha boca!...
(Florbela
Espanca - in "Livro de Mágoas")

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